MEU AMIGO INESQUECÍVEL

Conheci Vilmar em 1946, na rua da minha infância. Éramos vizinhos, estudávamos na mesma escola. Eu com seis anos, ele talvez com dez anos. Pelo que eu sabia, ele morava com a avó, D. Maria Eugênia, uma cartomante famosa na minha cidade. Freqüentemente, quando nos reuníamos, eu, ele e outros amiguinhos, Vilmar se empolgava ao contar-nos, pela enésima vez, com riqueza de detalhes, os seus encontros com o pai, que estava na guerra. Para ele, a Segunda Guerra ainda não havia acabado.

Lá, na guerra, ele e o pai passavam por mil peripécias. Ele ficava numa caverna, com o pai. O pai tinha um canhão e ele, Vilmar, tinha um canhãozinho. Muitas vezes, ambos tinham de se deslocar no campo de batalha nadando em rios de sangue, tanto era o sangue que escorria nas valas das trincheiras onde eles se protegiam da artilharia inimiga.

Muito tempo depois dessas narrativas, sempre que eu encontrava Vilmar eu ainda lhe perguntava, zombeteiro, do seu pai, do seu canhãozinho e dos rios de sangue. Até o dia em que Vilmar ameaçou de me fazer engolir meu sarcasmo, junto com alguns dentes. Prudentemente, nunca mais lhe perguntei nada sobre a sua guerra particular. Ele era bem mais forte do que eu.

Continuei a encontrar Vilmar em nossa rua. Nunca esqueci o dia em que ele conduziu-me até um terreno baldio, onde havia um vasto e assustador espinheiro, entre a casa de sua avó e um córrego que ainda hoje existe ali, agonizante. De súbito ele desapareceu à minha frente e alguns minutos depois reapareceu bem longe dali. Descobri que ele havia encontrado, ou construído, não sei ao certo, túneis entre os arbustos, por onde ele se esgueirava, para reaparecer em outras saídas daquele perigoso labirinto de espinhos. Tudo a ver com a caverna onde ele e seu pai se escondiam, na guerra, sem faltar sequer um córrego, que não era exatamente de sangue.

***

Décadas depois, vim a saber mais detalhes da vida de Vilmar. É uma bela história, que não pode deixar de ser escrita, para a eternidade. Descobri que ele morava com a avó porque seu pai havia sumido. Sua mãe, D. Celeste, que eu não conheci, por certo teria dito a Vilmar, na falta de explicação melhor, que seu pai estava na guerra. Por isso as histórias contadas por Vilmar. Não sei se ela morava ali, na mesma casa de D. Maria Eugênia, mas é D. Celeste a grande personagem desta história que eu quis registrar.

D. Celeste estava convalescendo do parto de Vilmar, lá por 1936. Ela, sentada em sua cadeira-preguiçosa, amamentando o filho, ouviu do marido que ele ia comprar uma galinha para preparar-lhe uma canja. Nada mais indicado para renovar as forças de uma mulher, naqueles tempos difíceis em que a única assistência às parturientes na minha cidade era a prestada pela querida D. Benvinda, a parteira de todos nós.

Saiu o marido de D. Celeste – o nome dele, ninguém sabe – à procura da galinha. Nunca mais voltou. Minto. Vinte e cinco anos depois, no dia em que casava Vilmar, ele reapareceu, na porta da casa em que deixou a sua Celeste, encontrando-a sentada na mesma cadeira-preguiçosa, como se não houvessem passado senão minutos, desde o momento em que ele saiu por aquela porta, para comprar a galinha.

A mulher o encarou serenamente, com surpreendente naturalidade. Por um momento ele esperou ser convidado a entrar, como se precisasse de convite para tal. D. Celeste, imóvel em sua cadeira, olhou nos olhos do marido e lhe perguntou: – "Trouxe a galinha?" Era a última coisa que o marido esperava ouvir dela, naquele momento solene! Surpreso, ele respondeu: – "Não." Foi o que bastou para D. Celeste subir nas tamancas. Sem se levantar da cadeira – não sei se ela o conseguiria; algo me diz que ela estava presa àquela cadeira, paralítica – ela apontou o portão para o marido e vociferou: – "Desapareça! Suma da minha frente! Imprestável! Vinte e cinco anos para comprar uma galinha e tem o atrevimento de voltar aqui sem ela?!"

Sem outra reação possível, diante do inusitado da recepção, o marido deu as costas à mulher, dirigiu-se para o portão, e nunca mais foi visto. Desta vez para sempre.

Telmo Ghiorzi

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© 20/05/2003 Atualizada em 16/09/2004