ESPINHO DE OURIÇO

Pahã, a seta, era o último filho de Canicrã. Ainda curumim, pelejava ao lado do irmão, o guerreiro Crebã, cujo ombro mal alcançava com o braço. Ele tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas de espinho de ouriço, a velocidade e a certeza do vôo do guanumbi. Quando caçava na floresta, divertia-se em matar as mutucas traspassando-as com suas flechas, que voavam mais rápidas e certeiras que as vespas venenosas. Ubirajara [1874], José de Alencar [1829-1877]

O bichinho da foto mais se parece com um inocente hamster, um bichinho de estimação.

Importante: Anotações pessoais de um leigo. Não sou veterinário. Não decida em questões de saúde de seus animais de estimação apenas com base em informações veiculadas na Internet. Leia-as com reservas, sempre submetendo-as a orientação de profissional do setor.

O ouriço, também conhecido como ouriço-cacheiro, tem seu dorso forrado de pelos rígidos, verdadeiros espinhos cravejados de fisgas. São cerca de seis mil espinhos. Quando algum predador o ataca – relatos de cães que atacam ouriços são freqüentes – os espinhos cravam na pele do agressor, como autênticos arpões, e são arrancados do couro cabeludo do animalzinho. Definitivamente fisgado por dezenas ou centenas de espinhos, quanto mais o predador se debate e tenta se livrar do martírio, mais os espinhos penetram na pele e mais infligem terríveis dores ao animal. A tentativa de extrair os espinhos com alicate é problemática. Haveria de se dilacerar a pele do animal e as dores seriam insuportáveis. A tentativa para salvar o animal, se a quantidade de espinhos for pequena, consiste em cortá-los rente à pele e esperar que eles murchem e que o organismo se encarregue de absorvê-los ou de expeli-los. Mas sempre existe a hipótese de que, com os movimentos do animal, os espinhos continuem a penetrar mais e mais em seu corpo, até matá-lo de dor, de infecção ou de comprometimento de órgãos vitais. Se a quantidade de espinhos for grande – às vezes são centenas – eu penso que o sacrifício do animal pode ser inevitável e piedoso, desde que absolutamente impossível conduzi-lo a uma clínica veterinária que avalie a possibilidade de salvá-lo.

Imagine-se, olhando a fotografia e a ampliação de um espinho de ouriço, a terrível situação do animal que abocanha um desses bichinhos aparentemente inofensivos. Fiz o desenho a partir de uns espinhos autênticos de ouriço (aqui fotografados), como há mais de 40 anos eu já havia observado em um pequeno microscópio. Lembro-me ainda que cada espinho é um verdadeiro arpão, com múltiplas fisgas (escamas pontiagudas). Acredito que o formato dos espinhos difere, conforme as diferentes famílias de ouriço, ao redor do mundo, podendo ser roliços, como os da foto, ou achatados. Uns com as fisgas mais acentuadas, outros menos. Os espinhos são muito grandes e podem ultrapassar 9cm de comprimento, enquanto o animalzinho tem o tamanho aproximado de um gato.

Quando se fala em ouriços, comenta-se, com certa freqüência, que eles arremessam os espinhos contra seus predadores, como flechas. Pura lenda. Os ouriços não têm essa capacidade. Os espinhos só se desprendem do dorso dos ouriços quando arrancados pela raiz (como se arrancam fios de cabelo ou como se desprende o ferrão das abelhas), depois que fisgam a pele dos agressores.

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Tenho uma triste relação com ouriços: no ano de 1943 nós morávamos em uma serraria de propriedade do Sr. Indalécio Koeche, nos arredores de Lages (SC), e tínhamos uma cadelinha preta de nome Pirosca. Pirosca andava livremente pelo mato e um dia apareceu em casa com o focinho cravejado de espinhos de ouriço. Na minha lembrança eram centenas de espinhos. Papai e um peão da serraria ainda tentaram arrancar os espinhos com um alicate. Logo desistiram. O sofrimento da cadela era insuportável. Papai, desesperado, apanhou uma espingarda de caça e apontou para a cabeça do animal. Eu, com 3 anos, e minha irmãzinha com 4, assistíamos à cena terrível. Papai não teve coragem de atirar. Entregou a arma para o peão. Este pegou a cadela e afastou-se. Voltou mais tarde sem a cadela. Eu e minha irmãzinha concluímos que ele matou a Pirosca e a jogou no riacho que passava perto da serraria. Nunca mais a vimos. Uma história sem culpados. Todos fomos vítimas, inclusive o pobre ouriço, que apenas se defendeu do ataque injustificado da cadela.


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© 20/05/2011 Atualizada em 18/01/2014