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HIFENIZAÇÃO, GUERRA DE EGOS
Dizem os jornais que "o acordo internacional, assinado em 1990, foi concebido para unificar e simplificar a grafia da língua portuguesa". Nada mais oportuno, se não fosse contraditório o que se vê, por exemplo, na rediscussão das palavras compostas. Perdeu-se excelente oportunidade para simplificar a vida do cidadão das nações que têm no Português o seu idioma. Seria o bastante estabelecer a regra única: "As palavras compostas serão hifenizadas sempre e tão-somente quando a aglutinação deturpar a pronúncia ou implicar alteração gráfica de uma das palavras componentes" Exemplos: sub-reptício, pára-raios, guarda-roupa, anti-social, contra-regra, sub-humano, super-homem, co-herdeiro, co-habitar, pró-cônsul, pró-aborto, pró-vida, pré-eleito, pré-requisito, super-resistente, inter-relacionado e hiper-reativo. Não seriam hifenizadas, conseqüentemente, palavras como "reeducar", "reeleger", "contraataque", "bateestacas", "antiinflamatório" e "microondas". Ninguém mais teria dúvida para escrever qualquer palavra composta. Dispensaríamos os dicionários e os dissabores de constatar que as editoras já partiram para o confronto. Houaiss e Aurélio já não se entendem. Este sugere "subreptício", aquele propõe "sub-reptício". Este propõe "pararraios", aquele sugere "para-raios". Este dita "paralama", aquele decreta "para-lama". Será uma eterna guerra de egos, para não dizer de cegos. E de surdos. Fica evidente que Houaiss e Aurélio não têm o menor compromisso com a convergência. Muito pelo contrário. E os jornais não ficam atrás nessa barafunda: a Folha "Online" estampa em uma notícia de 31/05/2009 "Médico pró-aborto (!) é assassinado nos EUA", para logo depois, no texto, lançar o disparate "[o médico] era alvo de grupos próvida (sic)". Qual o raciocínio para grafar pró-aborto e não acolher o óbvio pró-vida, eis que a palavra proparoxítona próvida contraria flagrantemente a linguagem falada? E, nesse embate particular do rochedo contra as ondas do mar, perguntar-se-ia sobre a triste sorte dos "mariscos", os pobres competidores dos concursos públicos e dos exames vestibulares Brasil afora. Prevaleceriam as idiossincrasias do Houaiss? Do Aurélio? De ambos? De nenhum dos dois? De um "tertius"? Quem? A Academia Brasileira de Letras? Aliás, por falar na ABL, como levá-la a sério, depois de conferir que seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa registra como correta a aberrante grafia prerrequisito para a palavra pré-requisito? Por que as autoridades enveredaram para o caminho das mil exceções, em vez de perseguirem regras gerais? E por que a estranhíssima regra que estabelece duplo hífen (no fim e no início da linha), quando coincidir que a divisão física da palavra composta ocorra exatamente no hífen? O hífen já não está criando suficiente confusão? Por que teriam de inventar excrescências como essa que nos obrigaria a escrever, por exemplo, "guarda- | -roupa" ou "anti- | -social"? Por que complicar? Isso sem contar que o conjunto das regras ortográficas do Português era – e vai continuar sendo – esse pesadelo que aí está, tanto para nós lusófonos quanto para os candidatos ao aprendizado do idioma. Aliás, mede-se bem a incompetência das autoridades brasileiras pelo fato de que passaram 18 anos ensaiando a mudança para chegar ao resultado que aí está e, como se não bastasse, para afundar o país neste lamaçal de incertezas durante o período de quatro anos, posto que as novas disposições só entrarão em vigor, obrigatoriamente, no ano de 2013. AS NOVAS REGRAS
Hífen
Trema
Acento diferencial
Alfabeto
Acento circunflexo
Acento agudo Nota 1 - Enquanto eu escrevia esse texto, vi na televisão Ariano Suassuna, exaltado, revoltado como eu, com a barbaridade que as "autoridades" estão fazendo com a língua portuguesa, a pretexto de "simplificar-lhe a grafia". Suassuna verberava que vai desobedecer às novas regras, que vai simplesmente desprezá-las. É o que eu penso fazer, especialmente com relação às regras em torno do hífen, que mais do que regras são uma barafunda de exceções. Eu e Suassuna podemos. Nós não temos que dar satisfações aos "luminares" de plantão. Pior sorte têm os nossos filhos e os nossos netos, sujeitos à "ditadura" que lhes impõem nas provas dos concursos públicos e nos exames vestibulares: ou se submetem ou são excluídos do processo.
Nota 2 - Dois fatos autorizam-me, e ao grande Suassuna, à "desobediência civil", particularmente no tocante à hifenização das palavras compostas:
O RETRATO DO DESPROPÓSITO ![]()
DEPOIMENTO IMPORTANTÍSSIMO I A reforma ortográfica apoia-se num documento lacunar e numa obra de referência marcada pela hesitação e pela inconstância de critérios Muito já se falou sobre o Novo Acordo Ortográfico. A frouxidão de argumentos que embasaram a sua implantação, como a suposta necessidade de unificar a grafia da língua portuguesa nos países em que é o idioma oficial, em favor do estímulo ao intercâmbio cultural entre as nações lusófonas e da simplificação de documentos oficiais, já foi suficientemente denunciada. É certo que o intercâmbio cultural entre os países da chamada "lusofonia" é algo positivo, mas o que pode fomentá-lo são antes políticas de incentivo que a supressão de hifens ou de acentos, cujo resultado prático é apenas anular diferenças sutis que nunca impediram a compreensão dos textos escritos do lado de cá ou do lado de lá do Atlântico. Se o uso do vocabulário e das estruturas sintáticas, os diferentes significados que alguns termos assumem em cada país, o leque de referências culturais que dão à língua sua feição local, para não falar na concorrência de outros idiomas (no caso das nações africanas e do Timor Leste), são obstáculos relativamente pequenos ao intercâmbio cultural, que dizer de pormenores como hifens e acentos? A ideia de unificação, que produziu um discurso politicamente positivo em torno do assunto, além de não ter utilidade prática, gera vultoso gasto de energia e de recursos, que bem poderiam ser empregados no estimulo à educação e à cultura. Não bastasse a inconsequência do projeto em si, o texto que o tornou oficial é tão lacunar e ambíguo que desafiou os estudiosos do idioma tanto no Brasil como em Portugal, fato que levou à produção de dicionários com grandes discrepâncias entre si. Faltava uma obra de referência, que estabelecesse a grafia das palavras, regularizando os pontos obscuros do texto oficial. Esperava-se que essa obra fosse concebida em conjunto pelos países signatários do Acordo, como fruto de um debate no âmbito do propalado projeto de unificação. No lugar disso, a ABL (Academia Brasileira de Letras) tomou a dianteira do empreendimento e confeccionou o "Volp" ("Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa"). Em lugar da solução dos pontos ambíguos do texto, o que se viu foi um misto de inobservância de princípios claramente propostos no documento oficial com hesitação entre o novo e o antigo, redundando, em muitos dos casos, em escolhas aparentemente aleatórias. Se a ABL entendeu que poderia suprimir o hífen de formas como "co-herdar" e "co-herdeiro", em desacordo com o texto oficial, talvez em nome da simplificação, por que esse princípio não presidiu as demais escolhas? Para ficar num exemplo gritante, por que transformar o verbo "sotopor" em "soto-pôr"? Está no texto oficial, mas isso não parece ser razão suficiente para a ABL. Pior que desmontar uma aglutinação, acrescendo-a de hífen e acento diferencial, talvez seja o fato de que as formas conjugadas do verbo não seguem a grafia do infinitivo (o "Volp" registra "sotoposto"). Ainda pior que isso é a hesitação: criaram-se grafias duplas ("sub-humano" e "subumano"; "ab-rupto" e "abrupto" e até "prerrequisito" e "pré-requisito", entre muitas outras) sem um critério seguro que as afiançasse. A interpretação do sexto artigo da Base XV do Acordo transformou substantivos compostos em locuções por obra da supressão sistemática dos hifens. As exceções, agrupadas sob a rubrica "consagradas pelo uso", são apenas sete no documento oficial, o que, por si só, já dá a medida do absurdo. O conceito é por demais vago, tanto que não garantiu a manutenção pura e simples da grafia "abrupto", esta sim consagrada pelo uso. A supressão do hífen que separava a forma prefixal "não-" de substantivos e adjetivos não é um recurso facilitador. Diante dos substantivos, não havia dúvida quanto ao seu emprego ("não-índio", "não-agressão" etc.). A distinção entre "dia a dia" (locução adverbial) e "dia-a-dia" (substantivo composto) era útil, afinal, o sistema de distinções favorece a compreensão da gramática da língua. Melhor trabalho teria sido a regularização do hífen com "bem" e "mal", nem sempre percebidos como prefixos. Louvável ainda teria sido o registro dos principais estrangeirismos em uso na língua, respeitando grafias consagradas em seu idioma de origem, dado que hoje não há tendência ao aportuguesamento. Sem um objetivo claro e com severas implicações financeiras, a reforma ortográfica apoia-se num documento lacunar e numa obra de referência marcada pela hesitação e pela inconstância nos critérios de regularização. Fica a incômoda impressão de que os custos serão bem maiores que os supostos benefícios. [THAÍS NICOLETI DE CAMARGO, professora de português formada pela USP, é consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL. É autora dos livros "Redação Linha a Linha" (Publifolha) e "Uso da Vírgula" (Manole)]
DEPOIMENTO IMPORTANTÍSSIMO II Reforma ortográfica resultou em textos mal escritos
"Desde que entrou em vigor, no dia 1º de janeiro deste ano, a reforma ortográfica só produziu problemas para os cidadãos, 'em nome de uma bobagem', e desperdício de dinheiro em um acordo que entrou em vigor precipitadamente no país, pois Portugal ainda não o adotou." Essa é a opinião do professor e colunista da Folha, Pasquale Cipro Neto, que participou da nona Feira do Livro, em Ribeirão Preto (SP), na última semana.
DEPOIMENTO IMPORTANTÍSSIMO III Portugueses resistem a adotar nova ortografia MARCOS STRECKERda Folha de S.Paulo Desde o início do ano, o novo Acordo Ortográfico já é uma realidade no Brasil. Mas em Portugal, por enquanto, não há acordo. As novas regras aprovadas no país em 2008 previam sua adoção em até seis anos. Os ministérios da Educação e da Cultura cogitaram sua rápida aplicação, de forma escalonada, já a partir de 2009. Mas o movimento contrário à reforma, iniciado ano passado, se expandiu e provoca dúvidas. Um abaixo-assinado contrário ao acordo, liderado pelo tradutor e ex-deputado Vasco Graça Moura, alcançou mais de 113 mil assinaturas. A petição "Manifesto em defesa da língua portuguesa contra o Acordo Ortográfico" foi apreciada por uma comissão parlamentar, onde um relatório do deputado Feliciano Barreiras Duarte foi aprovado recomendando a apreciação pela Assembleia Nacional. Isso ocorreu em maio passado. Na ocasião, a maioria governista descartou rever a sua aplicação. O movimento contrário aposta nas eleições legislativas de setembro para conseguir força política e forçar a revisão. EditorasOs dois maiores grupos editoriais do país (Leya e Porto Editora) ainda não têm planos de adotar a nova ortografia. Principal crítico do acordo ortográfico em Portugal, o tradutor Vasco Graça Moura diz que o grande número de assinaturas que conseguiu reunir já era esperado. "Não se esqueça de que dispomos de nove pareceres qualificados contra o Acordo, não havendo nenhum a favor dele", afirmou. Graça Moura diz que a petição antirreforma continua aberta à subscrição e calcula que dentro de alguns meses as assinaturas terão duplicado. "É sintoma da indignação geral que o Acordo vem causando." O político acha que a discussão está longe de terminar. "Considero que é possível evitar a adopção [ele pediu para manter o "p" mudo na grafia da palavra] de um documento absolutamente aberrante em Portugal", disse. "É certo que o acordo não foi adoptado em Angola, nem em Moçambique, nem na Guiné-Bissau, pelo que não vale nada como acordo internacional e não pode considerar-se em vigor. Sem contar que adoptá-lo nessas condições seria estimular o fosso ortográfico que tanto se dizia querer evitar." Graça Moura diz que o acordo é inconstitucional e beneficia sobretudo o Brasil, já que as adaptações são menos numerosas aqui. Para o tradutor, "o Brasil quase não teve de fazer cedências e vê abrir-se a porta de grandes mercados à sua indústria editorial e a um reforço de influência política e cultural no plano transcontinental". O professor de linguística portuguesa e de fonologia António Emiliano, da Universidade Nova de Lisboa, diz que a publicação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa neste ano, pela Academia Brasileira de Letras, contraria o segundo artigo do acordo assinado em 1990, que previa uma edição comum aos países. Diante das críticas, a Academia das Ciências de Lisboa divulgou em 25 de junho um comunicado se comprometendo a lançar uma edição portuguesa do "Volp" até o final do ano. "Isso não satisfaz. O "Volp" brasileiro e o que a Academia das Ciências de Lisboa tenciona elaborar até ao fim do ano não cumprem os quesitos do acordo", diz Emiliano.Segundo Graça Moura, "a edição do "Volp", se chegar a ser feita, não pode escamotear a questão do vocabulário científico e técnico também exigido pelo Acordo".
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